A PROBLEMÁTICA DO FANATISMO POLÍTICO NO BRASIL ATRAVÉS DE “DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL”

 

BIGHINZOLI, Vitor

Graduação em Comunicação com habilitação em cinema – FAAP

 

 

 

RESUMO

O seguinte artigo busca estabelecer uma ponte entre as personagens do filme de Glauber Rocha, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, com o cenário político brasileiro dos últimos anos, a fim de compreender o fenômeno do fanatismo político que se encontra tanto na extrema direita quanto na extrema esquerda.

 

Palavras-chave: Glauber Rocha, Política, Fanatismo

 

1. Introdução

 

            A fome não é um estado, é uma condição, como Glauber deixa claro. O Brasil é filho de um processo histórico conturbado, que deixado às mágoas, viu sua história sendo despossuída pelas mãos dos colonizadores, dos senhores de terra, dos ditadores e assim vai. O Brasil nunca teve um respiro, viveu sempre no arrocho do joelho do chicote. Não existe espaço para cultura, pensamento brasileiro, somos assim um centro de reciclagem europeu, estadunidense, o que for, mas ninguém pode ser brasileiro – nunca se teve amor pela estética do Brasil e há quem teime para que abandonemos de vez nossas cores. Há quem teime que voltemos ao estado colonial, de braços dados com o vizinho lá de cima, fechando contrato com os europeus, tirando a mão dos orientais. A estética da fome de Glauber é um manifesto pelo Brasil, um tiro nos zoio do diabo europeu para que gritemos todos juntos como uma nação, “Eu sou Brasil!”, pois há quem queira que o Brasil deixe de ser Brasil. Não é um estado, não se trata da falta de alimento e sim de nossa anorexia de ar; não se respira o ar da terra quente do sertão, se ignora a raiz baiana, o homem negro é encarcerado e o homem branco é o napoleão de Orwell. Traidores da nação, a guerra ideológica come a solta! É canhão dos dois lados, voa terra, voa lar. Um fanático quer a Europa e o outro a revolução. Não tomo aqui neste artigo lado algum da situação, venho apenas discutir esses dous que qué inibir; querem inibir a chama boa e amaldiçoar a esperança, porque o fanatismo não tem lado, é rosto do Diabo lavado.

         Seja Sebastião, seja Corisco, é evidente a fome do brasileiro. E é essa mesma fome, carência de espírito, que inibi nossos sentidos para que juntos trabalhemos. O fanatismo só trás o distanciamento: de um lado gritam pela queda do muro e do outro por um muro maior. Ambos estão errados. O problema é justamente quem fica no meio desse mar ideológico, forçado a escolher um fuzil, o da revolução ou o de sangue. E é sem demora que esse povo do meio perca a cabeça. Para Rosa a inconsistência do líder é tamanha que se abraça com o terror; o pobre Antônio cresceu com os sussurros errados, ele quer o bem, mas a falta de referência é o que sujou sua alma de sangue; Corisco é o injustiçado, apanhou tanto que o coice revida, difícil julgar um touro desses; Sebastião é a revolta inevitável, o resultado de muito arrocho nas costas, ele tem muitos nomes pelo decorrer da história, mas fato é que sua existência é inevitável, e por último Manoel, filho da desilusão, onde a fome é tamanha que pula de um lado para o outro e o faz não por falta de caráter, mas por simples e abastada necessidade.

 

2. Desenvolvimento

 

         O que quero levantar com tudo isso são os tipos de indivíduo que um país pode acabar criando de acordo com sua história, estes mesmos que seu julgamento é amoral, não se julga seus erros, mas podemos com toda certeza melhorar a situação para evitar que vivemos eternamente em uma guerra ideológica sem diálogo. o fanatismo político é aquela voz alta que esconde as pequenas vozes que querem falar, e muitas vezes é tão alta, que nada se vê por debaixo da neblina dos coices.

            Os coronéis do Sertão servem para a discussão como a figura do homem branco brasileiro que sonha em ser qualquer coisa, menos um brasileiro, sempre ironicamente defendendo a tradição brasileira – aqui já deixo avisado que não acredito que toda a direita seja assim, estarei tratando nesse artigo sempre dos fanáticos, seja na forma de um grupo ou de indivíduo.

          Sebastião, como foi colocado, é um fator inevitável que dá as caras por ai, nessa terra quente que é o Brasil. Sebastião é o acúmulo de toda a mágoa, revolta, dor e sofrimento dos esquecidos. É por isso que sem dificuldade alguma ele agrupa seus filhos. Seja a figura de Sebastião religiosa, política, ou o que for, ela é de extrema influência ideológica e pode com facilidade desencadear eventos poderosos. O problema é justamente quando a figura deste indivíduo não tem real noção de sua influência e acaba sendo irresponsável com sua palavra. O mesmo ocorre com um líder do lado oposto da questão, como Bolsonaro, o que inflige a dor: ele não tem noção alguma de sua influência e com as atrocidades que diz na televisão, legitima o racismo, machismo, homofobia, entre outras questões, de inúmeros indivíduos da sociedade. Isso é tão errado quanto uma líder feminista, por exemplo, querer disseminar o ódio ao homem, que não tem nada haver com a base do feminismo que é a total igualdade entre homens e mulheres. É claro que um caso é muito pior que o outro, mas em ambos o fanatismo de um indivíduo legitima e incorpora num grupo vasto de pessoas, pensamentos que vão atrapalhar o desenvolvimento do país! Pensando do ponto de vista estratégico e realista, o ódio ao homem só desvia a questão,  e pior ainda, irrita mais os machistas, impossibilitando de vez qualquer tipo de diálogo. Estrategicamente isso é um tiro no pé, isso não é querer o bem para as mulheres, é querer vingança. Eu sou um homem branco, hétero, com dinheiro, que estuda numa faculdade privada, então não faço ideia como é o sofrimento, a pungente vontade de revidar (que não se pode ser julgada em hipótese alguma) de muitos grupos no mundo, todavia eu posso dar minha opinião acerca da guerra como um todo, da violência, com base na história de toda a humanidade. Violência só traz violência, física ou não, impede qualquer tipo de diálogo e o ódio só prolonga a guerra, só redireciona os rios. Então, um líder, mais do que qualquer pessoa de um grupo com uma causa social, deve estar muito atento a sua fala, ele carrega uma responsabilidade moral gigantesca.

         A figura de Rosa é justamente a confusão de alguém em meio a tal movimento. Rosa compreende a situação da fome, a revolta de Sebastião que nada mais é senão a sua própria; o que ela não compreende e que a enlouquece, é a figura desvairada e sombria de Sebastião. Rosa fica num papel de refém, pois está na condição da fome discutida de Glauber, mas sozinha em sua voz. Sebastião é sua única chance de ser vista e representada no contexto do filme, mas Rosa não concorda com suas ações. O fanatismo de Sebastião ficou no caminho da verdadeira luta e afastou Rosa e quiçá muitos outros. A linha de frente pelo bem se torna um rio vazio e aqueles que buscam mudança através do diálogo, não tem voz. Ela acaba que enlouquecendo ideologicamente, caindo nos braços de Corisco, outro fanático que diferente de Sebastião, não se pode julgar sua responsabilidade individual. Pensando em um cenário atual, se entregar a Corisco é se entregar ao crime. Um garoto morador de favela, por exemplo, que perdeu os pais, que só encontra mentiras no lado da política que deveria estar ajudando a sua vida, acaba desistindo de qualquer esperança, uma falência ideológica dos órgãos. Não existe voz para ele lá em cima, é muita falácia e pouca ação – e ele precisa comer. Então vá para o inferno quem julgue as Rosas do brasil, para eles não resta esperança e a barriga rosna com força. Os caminhos que esse garoto tomar, são mais que justos! Aqueles que condenam o ladrão de pão, são os tiranos. É culpa sua, tirano, que ele rouba o pão da sua feira de terça.

       Corisco é quase que o fenômeno de Rosa, só que com um toque diferente. Ele é a figura do que apanhou, política não existe em seu vocabulário e sua referência é a violência - seu mundo real se resolve na bala. E por que isso? Deixaram o Brasil apodrecer, um monte de cantos vazios sem lei e sem amor, de lá só nasce a dor. Quem é Corisco no Brasil? Zé pequeno? São muitos os Coriscos e estes são os que menos se pode julgar. Se lembrarmos da obra prima “O Auto da Compadecida”, o Cangaceiro vai direto para o céu, pois ele nada fez senão reagir ao diabo que lhe pariu.

         Antônio das mortes é alguém muito complexo, pois é filho de sussurros e tampouco tem culpa de seu fuzil. Ele, similar à Corisco, tem a referência da bala, mas diferente de Corisco, ele não apanhou na pele ou no bastão, apanhou na cabeça, na lavagem cerebral. Um fanático da extrema direita, desses que compra arma, que quer a morte dos comunistas, que quer sangue e o reino de Deus, é um filho de coronel. Ouviu tanta coisa errada quando pequeno, que não existe outra filosofia de vida para se levar. Esse ódio e medo do leste, que tanto se observa aqui em nosso país - e que é ridículo - é absolutamente real para os Antônios do Brasil. A personagem está sempre sozinha, na caça, recebendo ofertas e comunicados, atrás de um inimigo invisível. E este, diferente dos demais personagens, faz parte de um grande ciclo ideológico, pois da mesma forma que cresceu, educará seus filhos. O ciclo de Antônio das Mortes é o ciclo do sussurro da direita brasileira e, seja esse sussurro fanático ou não, o que faz com uma criança é um pulo de gato assustador. Por isso que sempre insisto na educação das crianças para que aprendam a amar a si mesmas e aos outros, independente do que lhe ensinem em casa. Mas por conta de alguns professores que veem isso como uma oportunidade de passar mentalidades políticas de esquerda para as crianças, por exemplo, ao invés de focar no amor, os pais se revoltam e acusam a escola e seus mentores de doutrinação. Não culpo esses pais, ninguém quer ver seu filho recebendo ideias políticas de estranho, um reflexo natural; culpo os professores que tem a oportunidade de discutir o amor e que gastam seu tempo falando de política para crianças. Crianças! Isso só as confunde pois em casa escutam uma coisa e na escola outra. Isso cria desavenças entre a criança e seus pais, que não é o objetivo por mais terrível que sejam esses pais. Um filho que compreende o amor logo cedo, passa-o indiretamente a seus pais. Aqui novamente o fanatismo de alguns desvia toda uma geração. 

          E quem é Manoel? Manoel é o mais faminto de todos. Está faminto de espírito. Não é propriamente um oportunista, mas um simples faminto que pula de lá para cá a fim de comer. Ele não liga para a ideologia, contanto que esteja seguro. A figura de Manoel no mundo atual é a mais difícil para mim, pois é uma mistura de Rosas com Antônios, Coriscos e Sebastiões. É talvez o grande faminto brasileiro, o absoluto vácuo cultural e social, é o resto de comida no lixo. Deixo com ele apenas essa crítica.

 

 

 

3. Conclusão

 

         Como reforcei diversas vezes, não se pode julgar tais características que surgem nas pessoas, mas podemos sem dúvida alguma abrir os olhos para as pequenas coisas que desviam o foco de lutas concretas. Sejam essas lutas políticas ou espirituais, pouco importa, em ambos os casos e lados, temos figuras fanáticas que mancham a bandeira, afastam amigos, doutrinam crianças e impedem um desenvolvimento do país. Enquanto não existir diálogo, existirá guerra. Um lado está mais perto do certo? Pensando exclusivamente em ações e ideias, sim. Sem dúvida a esquerda, pois ela é muito mais humana que a direita em alguns pontos. Mas não esqueceis que a direita faz parte de um ciclo, e são nossos irmãos também. Não existe lado melhor que o outro e cada lado tem seus pontos positivos. Entretanto, odiar é pecar e o perdão é tudo que temos. Não adianta matar o racista, pois outro irá nascer em seu lugar. Mas se ensinarmos as nossas crianças desde cedo, todas elas, a amarem a si mesmas e umas as outras, é uma questão de tempo até que os ciclos do mal sejam quebrados e o fanatismo feche suas portas.

Deus e o Diabo são irmãos.

         Enquanto não fizermos isso pelas crianças, o futuro há de ter o rosto do agora. A guerra ideológica jamais terá fim.